Direto de Dublin

Relatos de um jornalista brasileiro na capital irlandesa

Xenofobia, ação, reação…

com 10 comentários

Fui atacado por um grupo de knackers esta noite. Nada demais ocorreu, apenas levei um soco de raspão no rosto. O problema foi a razão da violência: xenofobia. Infelizmente, ações como esta são comuns na Irlanda. É fácil encontrar estrangeiros que já sofreram investidas ríspidas pelo simples fato de serem imigrantes. Sulamericanos, indianos, maurícios e até mesmo europeus costumam ser desrespeitados por uma minoria irlandesa.

Os knackers têm uma postura completamente distinta dos demais nativos do país. Por mais que os irish sejam um pouco amargos, eles comportam-se com extrema educação e sociabilidade. Já este grupo específico é conhecido por brigar entre si e atormentar forasteiros. Em sua maioria, são adolescentes que andam em bandos e culpam os imigrantes por sua condição de vida desfavorável – habitam condomínios construídos pelo governo e vivem de bolsas-auxílio. Segundo eles, os estrangeiros tiram seus empregos e freiam sua evolução social. Como se eles realmente quisessem trabalhar…

As agressões costumam ocorrer de várias maneiras: lançamento de objetos, cusparadas, xingamentos, violência física… Há ações tanto inesperadas quanto premeditadas. Os estrangeiros identificados pelas suas características físicas, como a cor da pele e dos cabelos, podem ser atacados com uma ovada nas costas ou cuspe na cabeça, por exemplo. Já aqueles que geram dúvidas quanto à proveniência são abordados com uma provocação, que precede uma dúvida cruel: ignorá-los e provar não ser irlandês ou responder em inglês e correr o risco de ser identificado pelo sotaque?

No meu caso, a investida foi premeditada. Cansei de ouvir dos moradores de Dublin que não tenho cara de brasileiro, mas que também não lembro um irlandês propriamente. Por isso os garotos não relutaram em me incomodar. Era alvo fácil, pois estavam em quatro contra um – os knackers são covardes, andam em grupos grandes e têm medo de confrontar aglomerações equivalentes – e o local tinha pouca movimentação.

Retornava tranquilamente para casa pela margem superior do Rio Liffey, quase na O’Connell Street, quando passei por quatro adolescentes vestidos com o tradicional conjunto de moletom esportivo cinza e tênis brancos. Um dos knackers, de uns 13 ou 14 anos, pediu, em tom de provocação, meu sanduíche recém comprado no Centra do Temple Bar. A resposta foi um “foi mal, cara, tô com fome”. Em seguida, ele insiste e retruco: “já disse que não, é meu”. Na terceira, irritado, mandei um “fuck off“. Foi a deixa para que o mais velho deles – de aproximadamente 18 anos, um pouco maior que eu – pulasse na minha frente e perguntasse o que eu havia acabado de dizer. Ironicamente, ofereci uma mordida do lanche e, no ato levantar a mão para entregar, fui surpreendido por um tapa de mão fechada. Consegui desviar, mas o golpe acertou de leve meu rosto, logo abaixo do olho esquerdo. Depois disso, satisfeito, ele voltou para onde estava e fingiu que nada acontecera. Como já havia sido estúpido o suficiente para reagir com palavras, resolvi continuar andando, sem responder a agressão.

Admito meu ato falho e aceito parte da responsabilidade pelo ocorrido. Sim, caí na provocação dos rapazes, mas o ataque era iminente. Talvez uma resposta mais suave amenizasse a situação, ainda assim já estava preparado para correr caso os quatro atacassem ao mesmo tempo. Foi uma surpresa a investida ter sido feita individualmente, por isso permaneci caminhando enquanto o garoto me abordou.

Após o fato, me desloquei até a central de câmeras de vigilância da Garda, onde fui gentilmente atendido por um policial. Ele pegou meus dados e a descrição dos agressores e entrou em contato com uma viatura, que me buscou para tentar localizar os knackers. Foram aproximadamente 30 minutos de ronda sem sucesso. No final das contas, foi melhor não tê-los encontrado. Os menores seriam soltos e marcariam meu rosto. Apesar de ser capital de um país, Dublin é pequena e pacata, ou seja, é fácil reconhecer as pessoas nas ruas.

Por sorte, não houve algo mais grave. Talvez a pancada nem gere um hematoma. A experiência foi válida para perceber que a Irlanda não é tão segura quanto aparenta – porém, essa condição depende muito dos meus atos. Em nenhum momento esse caso me fez ter vontade de voltar para o Brasil. Pelo contrário, é uma razão a mais para continuar aqui. Encaro como uma experiência inesperada, porém importante para o meu processo de aprendizado.

Abraços a todos!

Escrito por F.Pamplona

março 15, 2010 às 4:59

Publicado em Experiências

10 Respostas

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  1. Putz, que complicado isso!

    Acho que nessas horas o susto é pior que a agressão em si, ainda mais que parece não ter sido grave o tapa.

    juízo hehehe

    costadessouza

    março 15, 2010 em 14:12

  2. É complicado isso, pelo menos em 7 meses de europa não soube de nenhum caso desses. Mas como você bem disse toda ação gera uma reação… as vezes pior…
    por sorte nada de mais aconteceu, mas é sempre bom andar ligado e com um olho nas costas hehehe, não podemos ter essa “falsa” sensação de seguraça e pensar que nada pode nos acontecer. Se cuida meu querido mas apesar disso a europa (irlanda) ainda é sensacional :)
    take care ;)

    Fabrício Fox

    março 15, 2010 em 17:23

  3. cara, o maior problema é que somos estrangeiros e eles nao. Se revidar, somos deportados. Eles sao soltos. E como voce falou, em uma cidade pequena, fica fácil te achar novamente.

    Agora, sobre a violencia… discordo. Isso só prova que os problemas de violencia aqui nao sao tao graves assim. Foram 53 assassinatos em 2009. O mesmo número que temos por hora no Brasil. Levar soco na cara, de um moleque desarmado, pra mim nao é violencia. Violencia é levar tiro de AKA de um moleque de 9 anos, no topo de uma favela. ISso me dá mais medo.

    De qualquer forma tome cuidado, evite cruzar por knackers quando anda na rua, evite retrucar, por mais que de vondade…. mas é uma daquelas coisas de ser “gringo” aqui.

    abracao, parabens pelo blog.

    Edu Giansante

    março 16, 2010 em 9:49

    • Não deixa de ser violência, é apenas uma questão de intensidade. Qualquer ato que gere desconforto, seja sofrer um xingamento, ultrapassar o limite de velocidade ou levar um tiro na cabeça, é considerado violência.

      Mas concordo plenamente que os níveis são completamente distintos. Porém, ao vir para a Europa, a última coisa que se tem em mente é se deparar com uma situação como esta. Pelo menos foi algo simples, um mero susto.

      Abraços!

      F.Pamplona

      março 16, 2010 em 12:19

  4. Nossa isso acontece muito no exterior? Eu estou juntando dinheiro para viajar, mas se for para ser tratado como cidadão de terceira categoria eu prefiro ficar aqui

    patty

    setembro 20, 2010 em 20:42

    • Com isso vemos como é horrivel vir a um pais seja a passeio, trabalho e estudo e ser hostilizado ou pior.

      Imagina quem vem ao Rio de Janeiro e é assaltado, atacado e até ferido por pivetes fortemante armados ou por bandidos com armas pesadas, isso sim é pesadelo, ter uma arma (de guerra) na sua cara.

      Snakers comparado a isso chega a ser como gangues de escola dos anos 80 daqui, pois hoje é tudo na bala.

      O lance é ficar atento e não vacilar, é estar atento como no Brasil, andando no centro de sp, no rio, salvador…

      Falando de europa os skinheads seriam pior…
      Isso tem no mundo todo (violência nas cidades) só muda o grau.

      Abs

      Dony

      janeiro 4, 2011 em 19:22

  5. Ops Knackers quis dizer…rs

    Dony

    janeiro 4, 2011 em 19:23

    • Nossa… ler isto me assusta, sabe..
      Meu maior sonho é morar na Irlanda! Eu sei bem sobre a xenofobia (tenho um primo que foi espancado a ponto de ter que ir para o hospital, em Londres) e isso me dá muito medo, admito… não sou, vamos dizer assim, parecida com os nórdicos.. tenho a pele mais morena, cabelos cacheados, ou seja, assim que eu pisasse lá já saberiam que sou extrangeira, e isso me preocupa. Fico temerosa de não conseguir viver lá… Mas é claro que vou tentar! Só espero que eu fique bem… :(

      Vitória

      junho 4, 2011 em 16:54

      • eu também tenho vontade de viver em londres, mas esses skinheads me metem medo.
        acho que pela violência nada se resolve!

        melissa

        agosto 14, 2011 em 22:37

  6. eu particularmente me sinto muito mais segura andando em area pobre em curitiba do que em dublin. ja tive varios amigos q apanharam, alguns foram realmente espancados. um dia eu estava no tesco (supermercado) da parnell , tinha um negro do meu lado, e um gupo de knackers jogou uma caixa cheia de uns grilos enormes na gente. ninguem fez nada, e eles nem sairam correndo, ficaram lá na porta pra rir. a garda aqui só finge q nao ve, pq eles tem cameras por tudo, meu amigo foi espancado e a policia nao fez nada, mesmo vendo o q acontecia. e qnto mais o tempo passa, (estou ha um ano e meio aqui), mais acho q exite diferença de tratamento qndo estou sozinha e qndo estou com o meu namorado irlandes. Entao nao dá pra dizer q aqui nao tem preconceito, ou que sao só os knackers q te tratam mal. tem q ficar sempre esperto.

    luna

    dezembro 29, 2011 em 18:09


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