Direto de Dublin

Relatos de um jornalista brasileiro na capital irlandesa

Ah, se fosse no Brasil…

com 4 comentários

Rogério Fernandes é mais um entre os milhares de brasileiros que vivem em Dublin. Assim como muitos dos seus compatriotas, chegou à Irlanda com o objetivo de aprimorar o inglês e experimentar uma rotina diferente longe da terra natal. Gaúcho, 33 anos, lecionava biologia em cursinhos pré-vestibulares, mas preferiu abandonar o emprego estável para realizar o sonho de morar no exterior.

Pouco menos de um mês após aterrisar na Irlanda, já convive com a dificuldade em obter um trabalho no país. Apesar de ter ensino superior completo, não vê problema em exercer atividades de baixa remuneração e grande esforço, como faxineiro ou lavador de pratos. Sua meta é angariar fundos suficientes para permanecer no país por um ano – tempo de duração do seu visto.

Contudo, o fato de estar temporariamente desempregado não o impede de fazer viagens curtas aos finais de semana. Rogério encara as saídas de Dublin como oportunidades de conhecer novos lugares e colocar em prática seu hobby: a fotografia. Proprietário de uma câmera semiprofissional Nikon P90, o professor já realizou cliques em Bray e Malahide, pequenas cidades litorâneas localizadas a poucos quilômetros da capital.

Em Malahide, aliás, teve uma grande suspresa. Após um longo dia de caminhadas e fotografias, sentou-se no Demesne Regional Park com os amigos para descansar. Por um descuido, deixou a maleta em que carregava sua câmera sobre a mesa e embarcou num trem rumo a Dublin. Rogério só percebeu o equívoco a poucos minutos da Connolly Station, seu destino final. Desesperado, decidiu retornar, com a esperança de recuperar sua preciosa P90.

Correu em direção à bilheteria eletrônica e comprou outro ticket de ida e volta para Malahide. No caminho de volta, acompanhado por um dos amigos, lamentava profundamente sua desatenção, sem se perdoar por ter esquecido o equipamento comprado com tanto esforço há nove meses. De cabeça baixa, abalado pela possibilidade de a maleta ter sido levada por alguém, o professor quase teve um ataque de nervos.

Quando o trem desembarcou em Malahide, mais de uma hora após o descuido, Rogério disparou na direção do parque. Uma corrida interminável, em que superou o cansaço da viagem e as dores que acompanham o ombro esquerdo. Procurou por todos os locais em que recordara ter passado e conversou com algumas pessoas, mas não havia sinal da câmera. Eis que se lembrou dos últimos momentos da sua visita anterior ao parque e acelerou em direção à mesa em que descansara anteriormente. Para a sua surpresa, lá estava a maleta, intacta, sequer mexida.

Num ato de felicidade, o professor abraçou o equipamento e sentou-se à mesa. Em êxtase, ligou para os amigos e comemorou com um indisfarçável sorriso. Foi do inferno ao céu no mesmo dia. Superou limites físicos e psicológicos. Passada a emoção, com um leve suspiro, celebrou ter perdido a câmera no lugar certo: “ah, se fosse no Brasil…”

Rogério, segundos depois de encontrar a P90

Abraços a todos!

P.S.: O Rogério é um dos meus flatmates, e fui eu quem o acompanhou na viagem de volta a Malahide.

Escrito por F.Pamplona

março 21, 2010 às 2:14

Publicado em Experiências, Notícias

4 Respostas

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  1. É por isso que és um queridão. :)

    Jéssi

    março 21, 2010 em 19:03

  2. Entao, isto aconteceu comigo tambem. Fui em uma convencao em Bundoram com meu noivo e perdi meu colar de ouro no hall de entrada do hotel. No outro dia fui na recepcao perguntar se alguem havia achado, mas sinceramente pensei que nunca mais fosse ver meu querido colar. Mas por incrivel que pareca, ele estava la na recepcao. Pensei isto tambem: Ah se fosse no Brasil…rsrsrsrs… Seu blog ta muito legal…gosto dos seus textos…tem um certo ar de critica…bem interessante. Parabens.

    Danda

    março 22, 2010 em 14:37

  3. É esse tipo de comportamento que faz falta por aqui. Questão de ética de todo um povo mesmo.

    Fábio Ricardo

    março 22, 2010 em 16:07

  4. Felipe em primeiro lugar parabéns. Como um bom jornalista você narrou esse fato com emoção. Até pareceia que você estava lá. Sabe aqueles textos se lê com imensa vontade de chegar ao final? comigo foi assim. Dei um suspiro quando você escreveu que ele encontou a câmera. Adorei. Bem aqui isso é comum. Acredito que a questão é mesmo cultural. Aqui em Bray é comum encontrar nos fins de semana sacolas, com roupas, calçados, brinquedos, em frente as lojas de “secondhans”. As famílias deixam lá para doação e minguém pega. Incrível mesmo. Forte abraço

    Zenaide Peres

    março 25, 2010 em 11:11


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